Não sei se foi a Copa do Mundo, o caso Bruno, ou ainda interesses diversos que têm me mantido disperso ao Mengão. Eu sei, é infração gravíssima não cumprir o dever cívico de apoiar incondicionalmente – e nem se trata disso, veja bem, – os mulambos dentro de campo, mas esse Flamengo desfigurado não me desperta o tesão de outrora.

O fato é que ninguém com um mínimo de respeito à história rubro-negra pode aceitar este esquema do Rogério Lourenço: bola trocada na defesa e meio-de-campo, esperando o adversário abrir espaço pra encaixar um cruzamento aéreo. O Flamengo nunca foi um time de chuveirinho! Não adianta insistir, nossas listras não resplandecem.

Tradição deve ser seguida, independentemente das modinhas que florescem esporadicamente. Não somos o São Paulo, Sr. Lourenço: por favor, não nos transforme em um. Nossa camisa não joga senão pra frente, é pra cima deles que se descortina o esplendor rubro-negro.

– por andré yaakoub.


27) Porque assim como o relâmpago brilha pelo céu de leste a oeste, assim será minha vinda quando Eu, o Messias, voltar.
28) E onde o cadáver estiver, ali os urubus se ajuntarão.
29) Imediatamente depois da perseguição daqueles dias, o sol se escurecerá, a lua ficará negra, as estrelas parecerão cair do céu, e as forças que sustentam a terra serão abaladas.
30) Depois, finalmente, aparecerá no céu um sinal da minha vinda, e haverá profunda lamentação ao redor de toda terra. As nações do mundo Me verão chegar nas nuvens do céu, com poder e grande glória.
(…)
38) O mundo estará distraído em banquetes, festas e casamentos – tal como foi no tempo de Noé, antes da vinda repentina do dilúvio;
39) O povo não queria acreditar no que estava para acontecer, até que o dilúvio realmente veio e os levou a todos. Assim será na minha vinda.
40) Dois homens estarão trabalhando juntos no campo; um será levado, e o outro será deixado.
41) Duas mulheres estavam cuidando dos seus trabalhos caseiros; uma será levada, e a outra será deixada.
42) Portanto, estejam preparados, porque vocês não sabem em que dia o seu Senhor vem.
43) Tal como um homem pode evitar problemas com os ladrões mantendo vigilância contra eles
44) assim também vocês podem evitar dificuldades, estando sempre prontos para a minha volta inesperada.
45) Você é um servo do Senhor sábio e fiel? Então Eu lhe entregarei a tarefa de cuidar da minha casa, e dar de comer aos meus filhos dia a dia!
46) Feliz de você, se quando Eu voltar, encontrá-lo fazendo fielmente o seu trabalho.
47) Eu vou pôr servos fiéis assim para cuidar de tudo o que possuo!
48) Mas se você for mau e disser consigo mesmo: ‘Meu Senhor não voltará tão cedo’
49) e começar a maltratar os outros servos seus companheiros, metendo-se em festas e ficando embriagado.
50) O seu Senhor chegará sem avisar e sem ser esperado
51) e vai castigar duramente você, e o mandará para a condenação dos fingidos; ali haverá choro e ranger de dentes.
– extraído de Mateus 24, editado por andré yaakoub.

Eis que Adriano, enfim, vai-se embora do Flamengo. Era crônica da saída anunciada, mas sempre tinha aquela expectativa. E eu, que achava ser hora do imperador renunciar já há bastante tempo, fiquei com um aperto no coração, devo admitir. Mas deu n’O Globo e em outros lugares, vejam lá tudo explicadinho: já planejando a despedida em grande estilo (o que significa não jogar os dois últimos jogos previstos em seu contrato) para voltar à Itália, dessa vez defendendo o Roma.

É evidente que a crise instaurada desde o início do ano, com a eliminação do Estadual (não levar sequer um turno, competindo só com times de qualidade absolutamente inferior, foi duro de engolir) e muitas picuinhas, só se agravou. E não me refiro à saída da Libertadores. Isso – assim como a derrota no Estadual, é verdade – é só a pontinha do iceberg rubro-negro.

A verdade é que não se pode achar que uma diretoria que permitiu absurdos como delegar a jogadores a decisão sobre horários horários de treino, como faziam Adriano, Bruno, Álvaro (QUEM é Álvaro para ter esse poder, meu Deus?) e bad boys agregados – dentre também outras regalias -, fosse resolver qualquer problema mais sério. Digo isso porque acreditei que, com a demissão de Braz e Andrade, estivesse sendo tomada alguma atitude séria para retomar as rédeas, e que Patrícia Amorim estivesse comendo pela beirada do prato para levantar o clube, sem criar brigas políticas a menos que fossem realmente necessárias . Mas, como se viu, passamos longe disso. Nenhum técnico de peso foi contratado para dirigir o time na Libertadores (se não há dinheiro para outro, nada justifica, então, demitir o técnico campeão brasileiro no meio do campeonato; era o caso de devolver a ele a autonomia e autoridade no trabalho conduzido); Pet continuou no banco (embora houvesse um papo de que isso era coisa do Braz, depois viu-se que Patrícia Amorim estava de acordo; e colocar Michael no ligar de Pet num jogo de vida ou morte de Libertadores, realmente, só pode ser uma piada de muitíssimo mau gosto); Adriano surgiu com problemas nas costas, problemas nas coxas; Bruno dizendo que se lixava para a torcida; e daí pra pior. Patrícia Amorim, pelo visto, como todos os antigos sanguessugas, está lado a lado de empresários que colocam seus próprios negócios antes do Flamengo. Empresários que, em vez de fazerem grandes negócios para o Flamengo, fazem do Flamengo um grande negócio – para eles.

Por tudo isso, na verdade, é que volto a Adriano. Era bem provável que fosse sair, e ninguém está surpreso com isso. E já era hora. Para o clube, isso é ótimo, e temos de ficar felizes. Gostei, por exemplo, do que o Muhlenberg escreveu sobre o caso. Nem sempre concordo com o que ele escreve, mas acho que nesse caso ele falou exatamente aquilo de que se trata. Recomendo a leitura, e ainda completaria com o seguinte: Adriano foi uma coisa incrível que aconteceu ao Flamengo, mas é o clube que tem de tirar vantagem da presença dele, e não ele tirar vantagens de estar no Flamengo. E parece que a torcida demorou, mas começou a entender isso.

Mas agora fica também a curiosidade de o que vai acontecer com o atacante. A postura que Adriano demonstrou, de falta de desejo, era algo pernicioso a si e ao clube. E não me parece que ele vá mudar isso. Não se contentava com Europa, entrou naquele bode, ficava bebendo pelas noites de Milão, faltava treinos, e parou de jogar bem, de fazer gols. Aí, voltou pro Brasil. Jogou, jogou, jogou pra-caralho. Nas últimas cinco ou seis rodadas do Brasileiro, voltou a amarrar a cara, parou de correr em campo, não comemorava mais os gols, e começou a aparecer demais pela noite carioca, a faltar treinos, parou de fazer gols, ou só fazia gols de pênalti.

Não parece a você, caro leitor, um ciclo? Talvez seja cedo para definir um padrão a partir disso, mas já adianto o que, creio, vai acontecer. Adriano vai chegar ao Roma festejadíssimo, como chegou à Inter, e como chegou ao Flamengo. Adriano vai fazer muitos gols no Roma e seu nome será exaltado em altos brados pelas ruas da capital italiana. Adriano vai estar em todas as capas de jornal. Aí, Adriano vai ficar triste com tanto êxito. E vai começar a se afogar nas festas. E vai começar a beber, e vai faltar os treinos. Vai dizer que ali não está feliz. E vai partir para outro clube.

Adriano não é imperador. Imperador é até morrer, é sempre da mesma nação, e trabalha duro, muito duro. Adriano é deputado, daqueles que não gostam de trabalhar, que só se esforçam em tempos de campanha política, e muda de praça quando sua popularidade cai. Adriano é um deputado que sequer completa seus mandatos.

(Todo jogador tem seu ciclo, tem seu tempo em cada clube, isso é normal. Tudo, aliás, tem seu tempo, já aprendíamos no famoso excerto em Eclesiastes 3, 3-8. Mas não da forma como Adriano, parece, está fazendo. O jogador profissional e comprometido, exceto em casos extremos, deixa esse ciclo se completar. É a isso que me refiro quando digo que imperador tem que ser da mesma nação. Não me iludo que ele vá ficar em um mesmo clube a vida inteira, porque isso não existe no futebol atual. Mas, ao não deixar o ciclo se completar, Adriano não se torna imperador de nação nenhuma, porque não cria o vínculo. Entretanto, há que se reconhecer: nada disso faz com que possamos dizer que ele não é um craque. Ver Adriano jogar é um deleite. A pena é ele também não se deleitar.)

Acima de tudo isso, entretanto, está o Flamengo. E muita coisa parece que está para mudar, ao que parece, pois outros jogadores estão visando a possibilidade de sair, e igualmente a diretoria de despachá-los. Estamos vacinados porque, desde há muito, não costuma ser prenúncio de coisa boa. É agora que vamos ver se o Flamengo está mesmo entrando numa nova fase, de maior profissionalismo e seriedade, como pareceu significar a conquista do Hexa (tem que ser com letra maiúscula, convenhamos), ou se foi fogo de palha.

Apostas?

– por Rafael Cesar


acabou o amor.

13maio10

Não adianta agora ficar de palhaçadinha tipo “Fora Bruno”, “Fora FMI”, temos mais é que juntar os cacos e buscar a virada. Não é impossível, mas o Flamengo vai ter que ser muito Flamengo pra conseguir, e essa bola a gente ainda não jogou esse ano.

Vou me abster de comentar as falhas ridículas do capitão, aliás, as falhas em campo, não dá pra deixar passar em branco as declarações desse sujeito. Em outros tempos, ele admitia seus frangos e buscava se aprimorar, alternava defesas de pênaltis com saídas ridículas do gol, mas depois de dizer que está se lixando pra torcida, seu crédito acabou junto com o amor.

Talvez seja cedo pra esquentar o banco, mas já passou da hora de entregar a braçadeira.

-por andré yaakoub.


é de arrepiar, quarta seremos setenta mil cantando juntos!


desafogo.

22abr10

Jogadores jogam, treinadores treinam, dirigentes dirigem, narradores narram, jornalistas jornalizam, comentaristas comentam e torcedores torcem. Nós, que somos os últimos dessa escala, somos os únicos não remunerados para exercer nossas funções, o que nos isenta de cobrança. Ao contrário, sustentamos o mercado que alimenta a família de todos os outros, seja com ingressos caros, camisetas, venda de jornais ou tempo de audiência na televisão. Assim, nos é concedido o direito inalienável à vaia.

Se um presidente pensa que não deve satisfações à torcida do time que dirige, pois argumenta que é eleito por sócios, esquece que é esta que movimenta o mercado do futebol, mesmo que este clube não seja exclusivamente de futebol. Ou seja, a torcida é o elo fundamental da cadeia futebolística, o combustível que faz girar as engrenagens da mecânica esportiva. Sem sua torcida, o Flamengo seria um Grêmio Prudente com vista para o mar.

Assim, enquanto liame essencial, temos o direito adquirido de emitir opiniões quaisquer, da mais estapafúrdia à mais coerente. Uns preferem conversar em botecos, filas de padaria, metrô lotado ou elevador; outros gritam da janela de casa a cada gol e falam mal do técnico para o gato; e há ainda os que vão ao estádio torcer, dar o suporte necessário aos onze mulambos dentro de campo, e que, entre um lance perdido e um tiro de meta, xingam um ou outro jogador e a mãe do juiz.

Na noite de ontem, após noventa minutos emputecedores, o Flamengo conseguiu detonar uma bomba que armava desde o começo da temporada. Esta noite,  eu ouvi vaias que não existiram contra o América do México, por exemplo, nem contra o Santo André. Talvez o Maracanã nunca tenha ouvido vaias tão efusivas, direcionadas e furiosas, nem tão merecidas. Ninguém ali vaiou apenas pelo jogo apresentado hoje, também não se questiona a justiça do resultado: é um acúmulo de falta de técnica e tática, corpo mole e problemas fora de campo que vêm saturando desde janeiro a paciência daqueles que pagam pelo espetáculo e que exigem um mínimo de compromentimento com o Flamengo. Ontem foi só o estopim, mas poderia ser semana que vem ou no começo do Brasileirão, se tivéssemos conseguido mais um gol contra os cones de Caracas ou segurado a vitória contra La U.

Seguidos vexames inexplicáveis nos últimos anos geraram essa ansiedade na torcida. Pode acontecer de a equipe ter um apagão durante as monótonas trinta e oito rodadas de pontos corridos do Brasileirão, mas é inaceitável pra quem vive o Flamengo que isso ocorra numa final de Copa do Brasil ou oitavas de final da Libertadores. A questão da Libertadores deste ano é que a equipe não se apresentou como poderia em quatro de seis jogos. O Flamengo hoje não passa de energia potencial: tem um timaço que não joga um mínimo de bola pra fazer dois gols de diferença contra uma equipe que não ganha nem do time de showbol do Brasil de Pelotas. Aqueles que vaiaram repudiam esta postura repetidamente apática de alguns jogadores, que em nada combina com a tradição rubro-negra.

O Flamengo é maior que tudo e que todos. Se sobrevivemos à saída do Zico, por que seria uma catástrofe mandar o Adriano embora de novo, por exemplo? É no mínimo louvável perceber também que uma torcida começa a transcender as quatro linhas e ofender um dirigente que se acha maior que a instituição, que quer aparecer mais que suas estrelas. O Pet nos deu um tricampeonato sobre os vices da colina com aquele golaço que vai ser lembrado pra sempre, o Andrade nos deu cinco títulos brasileiros. E o Marcos Braz, o que nos deu além de manchetes cataclísmicas?

Enfim, com vaga ou sem vaga nas oitavas, com ou sem Andrade, Pet, Adriano ou Bruno, mesmo sem paz na terra aos homens de boa vontade, permanece o Flamengo e permaneceremos nós a empurrá-lo pra frente, sempre. Como bem canta a torcida, “o tempo passa, se passam os jogadores, mas fica tu, Flamengo, e eu não paro de cantar”.

– por andré yaakoub.